
“Nel blu, dipinto di blu, felice di stare lassù.”
No extremo sul da Itália, entre o Adriático e o Jônico, a região da Puglia guarda uma identidade construída ao longo de séculos de encontros, disputas e influências. Gregos, romanos, bizantinos, normandos e espanhóis deixaram marcas que ainda aparecem nas ruas estreitas de Bari Vecchia, nas fortalezas de Monopoli, nos telhados cônicos dos trulli de Alberobello e nas fachadas quase bordadas em pedra de Lecce. Quando tanta história começa a parecer grandiosa demais, surgem uma enseada escondida junto às muralhas, as casas de Polignano a Mare equilibradas sobre as falésias ou uma estrada cercada por oliveiras para lembrar que a Puglia também é feita de simplicidade, calor e vida ao ar livre. Talvez seu maior encanto esteja justamente nesses contrastes: é rural e monumental, delicada e resistente, profundamente ligada às suas tradições e, ao mesmo tempo, completamente aberta para o Mediterrâneo. Na Puglia, a pedra não funciona apenas como cenário; ela forma os muros das cidades, sustenta os trulli, recebe os detalhes do barroco e registra as marcas do tempo. É uma região que não se revela apenas nas praias ou nos monumentos, mas na relação constante entre pedra, terra, luz e água. E, depois de percorrer suas cidades históricas, seus olivais e suas duas costas, fica fácil entender por que a Puglia parece menos um lugar que se visita e mais uma terra que se sente: intensa, luminosa e impossível de confundir com qualquer outra.
O relato abaixo é totalmente baseado na minha experiência e no que eu planejei para esta viagem, considerando os meus gostos, e obviamente pode ser adaptado de acordo com o perfil de cada um.
Quando Eu Fui?
Visitei a Puglia no comecinho do verão europeu, de 11/06/2026 a 18/06/2026, logo depois de Malta. Foram 7 dias inteiros pela região, passando Bari, Monopoli, Polignano a Mare, Matera, Alberobello, Lecce, San Cataldo, Galipolli, Santa Maria di Leuca, Castro e Otranto. Achei uma época excelente para viajar: os dias já eram longos, ensolarados e quentes, com temperaturas geralmente entre 22°C e 30°C, mas ainda sem o calor mais intenso e as multidões de julho e agosto. Já dava para aproveitar as praias e o mar e caminhar bastante pelos centros históricos sem que o calor tornasse os passeios tão cansativos. Em uma semana, consegui conhecer cidades muito diferentes entre si, fazer bate-voltas de trem, participar de excursões e ainda reservar tempo para praia e uma aula de culinária. Foi um roteiro intenso, mas possível. Especialmente porque organizei a viagem com duas bases principais e não precisei trocar de hospedagem todos os dias. Ainda assim, a Puglia tem muito mais do que cabe em uma semana, e terminei a viagem com a sensação de que sete dias foram suficientes para uma ótima primeira experiência, mas não para encerrar o assunto.
Como Se Transportar Pela Puglia?
Embora muita gente escolha alugar um carro para explorar a Puglia, fiz toda a minha viagem usando trens, ônibus e excursões. O carro oferece mais liberdade para chegar a praias afastadas, pequenas cidades do interior e hospedagens rurais, mas não é indispensável, especialmente quando o roteiro inclui cidades bem conectadas pela principal linha ferroviária da região. Abaixo listo algumas opções de como se deslocar por essa região:
- Trem: Foi meu principal meio de transporte. A linha regional da Trenitalia acompanha boa parte da costa e conecta cidades como Bari, Polignano a Mare, Monopoli, Ostuni, Brindisi e Lecce. Usei o trem para fazer o bate-volta de Monopoli a Polignano a Mare, para mudar de base de Monopoli para Lecce e, no final da viagem, para seguir de Lecce até Bari. Os trajetos foram simples, rápidos e relativamente baratos. Os bilhetes podem ser comprados pelo site ou aplicativo da Trenitalia, nas máquinas de autoatendimento e nas bilheterias das estações. Se comprar uma passagem física, não se esqueça de validá-la antes do embarque.
- Ferrovie del Sud Est: Além da Trenitalia, a região possui a rede da Ferrovie del Sud Est, que opera trens e ônibus para diversas cidades do interior. Ela atende destinos como Alberobello, Locorotondo, Martina Franca e algumas localidades do Salento, mas as viagens podem exigir baldeações e os horários costumam ser mais limitados, principalmente aos domingos e feriados. Portanto, é importante pesquisar cada trajeto com antecedência. Na Puglia, nem sempre duas cidades próximas no mapa estão conectadas de maneira rápida por transporte público.
- Ônibus regionais e urbanos: Os ônibus complementam os trajetos que não são atendidos pelos trens e podem ser úteis para chegar a praias ou cidades menores. Em Lecce, por exemplo, usei o transporte público para conhecer San Cataldo, uma das praias mais próximas da cidade. No entanto, as linhas podem ter poucos horários fora da alta temporada e funcionar de maneira diferente aos domingos. Vale sempre conferir com antecedência o ponto de embarque, porque ele nem sempre fica ao lado da estação ferroviária.
- Excursões: Para lugares que seriam mais demorados ou complicados de visitar sem carro, optei por passeios organizados. Saindo de Monopoli, fiz uma excursão para Matera e Alberobello. Depois, a partir de Lecce, participei de outra excursão pelo Salento, passando por Gallipoli, Santa Maria di Leuca, Castro e Otranto. Essa combinação funcionou muito bem: consegui conhecer várias cidades no mesmo dia, sem precisar lidar com inúmeras conexões ou me preocupar com os horários do último ônibus ou trem.
- Carro alugado: É a opção que oferece mais liberdade e pode ser especialmente interessante para quem pretende explorar a Valle d’Itria, praias mais isoladas, pequenos vilarejos e masserie no interior. Por outro lado, dirigir não é necessariamente a escolha mais prática dentro dos centros históricos, que costumam ter ruas estreitas, estacionamento limitado e áreas de tráfego restrito, as chamadas ZTLs. Para o roteiro que montei, o carro não fez falta.
Onde Fiquei Hospedada?
Como viajei pela Puglia sem carro, a localização das hospedagens foi uma parte importante do planejamento. Em vez de escolher apenas uma cidade e fazer todos os passeios como bate-volta, dividi as sete noites entre três bases: Monopoli, Lecce e Bari. Fiquei três noites em Monopoli para explorar a região central da Puglia, três noites em Lecce para conhecer a cidade e o Salento e uma última noite em Bari antes de retornar para Roma. Essa divisão acompanhou naturalmente o sentido do meu roteiro e evitou deslocamentos longos e repetitivos.
Monopoli: CasAdria
Monopoli funcionou muito bem como primeira base para conhecer a própria cidade, Polignano a Mare e fazer a excursão para Matera e Alberobello.
Em Monopoli, fiquei três noites no CasAdria, um apartamento inteiro localizado na Piazza Giuseppe Garibaldi, uma das áreas mais bonitas e movimentadas do centro histórico. Para quem está sem carro, a localização é excelente: o Porto Antico, o Castello Carlo V, os restaurantes, as lojas e o mar ficam praticamente na porta, enquanto a estação de trem está a aproximadamente 15 minutos de caminhada. O apartamento fica no primeiro andar e acomoda até três pessoas. Possui um quarto com uma cama de casal e uma de solteiro, sala de estar, cozinha completa, banheiro privativo, ar-condicionado, Wi-Fi e janelas com isolamento acústico, algo útil considerando a localização em uma praça cheia de restaurantes. O edifício também possui um terraço compartilhado no terceiro andar. Paguei R$2.073,41 pelas três noites (preços 2026), incluindo a taxa de serviço do Airbnb, o equivalente a aproximadamente R$691 por noite. Não foi a hospedagem mais barata da viagem, mas a localização compensou bastante: eu conseguia fazer praticamente tudo a pé e ainda vivia o centro histórico mesmo depois de terminar os passeios do dia. A vista da varanda de frente para a praça é incrível, vale demais o investimento.



Airbnb em Monopoli – CasAdria
Lecce: Nina’s Suite
Lecce foi uma ótima segunda base para o roteiro: além de conhecer a própria cidade, foi de lá que segui para San Cataldo, participei da aula de culinária e fiz a excursão pelo Salento, passando por Gallipoli, Santa Maria di Leuca, Castro e Otranto. Para as três noites em Lecce, escolhi a Nina’s Suite, uma pequena casa independente localizada dentro da área de pedestres do centro histórico. A hospedagem fica no antigo bairro judeu de Lecce, diante da Igreja de San Nicolò dei Greci e a poucos passos da Basilica di Santa Croce, de restaurantes, lojinhas e das ruas mais bonitas da cidade. A casa acomoda até duas pessoas e possui um quarto com cama de casal, sala, cozinha, banheiro privativo e um pequeno terraço com vista para a praça. Também conta com ar-condicionado, Wi-Fi e self check-in. Apesar de estar bem no centro histórico, a localização é mais tranquila do que eu imaginava e permitiu que eu explorasse Lecce inteira a pé. Paguei R$1.802,43 pelas três noites (preços 2026), já com as taxas do Airbnb e os impostos, o equivalente a aproximadamente R$601 por noite (preços 2026). A decoração desse Airbnb é de extremo bom gosto, eu fiquei completamente apaixonada por esse lugar.



Airbnb em Lecce – Nina’s Suite
Bari: Moma Urban Stay
Na última noite, fiquei no Moma Urban Stay, no centro de Bari. A propriedade fica na Via de Rossi, em uma localização conveniente tanto para chegar de trem quanto para conhecer a cidade a pé: são cerca de 10 minutos de caminhada até a estação Bari Centrale e aproximadamente 10 a 15 minutos até Bari Vecchia, o Castello Svevo e algumas das principais atrações do centro histórico. Apesar de aparecer nas plataformas como hotel ou B&B, o Moma Urban Stay funciona mais como uma pequena hospedagem de quartos, sem toda a estrutura de um hotel tradicional. Os quartos possuem banheiro privativo, ar-condicionado, Wi-Fi, televisão, frigobar e cafeteira, e o prédio conta com elevador. Era exatamente o que eu precisava para apenas uma noite: uma acomodação moderna, confortável e central, sem pagar por serviços que eu praticamente não teria tempo de utilizar. Paguei R$668,58 pela noite (preços 2026). Escolhi dormir em Bari porque queria reservar o último dia para conhecer a cidade e, ao mesmo tempo, estar mais perto da rodoviária para o ônibus para Roma no dia seguinte.

Quarto de Casal no Moma Urban Stay – Bari
No total, gastei R$4.544,42 com as sete noites na Puglia (preços 2026), uma média de aproximadamente R$649 por noite. Os preços são referentes a junho de 2026 e podem variar bastante conforme a época, a antecedência da reserva e o número de hóspedes. Para o meu roteiro, a combinação das três bases funcionou muito bem: Monopoli me aproximou das cidades da costa e da região central, Lecce facilitou os passeios pelo Salento e Bari encerrou a viagem de maneira prática, sem que eu precisasse voltar grandes distâncias apenas para pegar um trem, ônibus ou vôo.
Roteiro Detalhado – Puglia (7 dias)
Dia 1 – Monopoli
- Piazza Giuseppe Garibaldi
- Porto Antico
- Faro Rosso
- Castello Carlo V
- Basilica Cattedrale Maria Santissima della Madia (Catedral de Monopoli)
- Caminhada pelas ruas do Centro Histórico
- Largo Palmieri
- Lungomare Santa Maria
- Cala Porta Vecchia
- Chiesa di San Francesco d’Assisi
- Piazza Vittorio Emanuele II
- Villa Comunale
- Porto di Monopoli
Monopoli foi minha primeira base na Puglia e, assim que cheguei e deixei as malas no Airbnb, saí para explorar a cidade a pé. Minha hospedagem ficava na Piazza Giuseppe Garibaldi, então o roteiro começou praticamente na porta de casa. A praça concentra boa parte da vida cotidiana do centro histórico e reúne restaurantes, bares, cafés e edifícios antigos. Ela também ajuda a entender como Monopoli se organiza: a poucos passos estão o porto, as muralhas, as igrejas e as ruas que formam o núcleo medieval. Um dos edifícios mais importantes da praça é o Palazzo Rendella, que teve diferentes funções ao longo do tempo, incluindo a de teatro, e atualmente abriga a biblioteca municipal. Na praça fica ainda a Torre Cívica, uma construção ligada à administração da cidade. A torre possui relógio e sino e, durante séculos, funcionou como um dos pontos de referência do centro urbano.


Piazza Giuseppe Garibaldi
A poucos passos dali cheguei ao Porto Antico, uma das imagens mais conhecidas de Monopoli. O pequeno porto fica protegido entre as construções do centro histórico e continua ligado à pesca e à navegação local. É ali que ficam atracadas as pequenas embarcações tradicionais, conhecidas como gozzi. Na Puglia, esses barcos aparecem em diferentes cidades costeiras, mas em Monopoli eles se destacam especialmente pelo contraste entre as cores vivas das embarcações, o branco das fachadas e o azul do Adriático. O porto não é apenas um cenário bonito para fotografias. Durante séculos, ele foi essencial para a sobrevivência econômica da cidade, que dependia da pesca, do comércio marítimo e da ligação com outros portos do Mediterrâneo. Monopoli possui uma posição estratégica na costa da Puglia, voltada para o Adriático e relativamente próxima da costa balcânica. Essa localização ajudou a cidade a manter relações comerciais e também a se tornar alvo de disputas entre diferentes poderes ao longo da história.



Porto Antico di Monopoli
Continuei pelo Molo Margherita até o Faro Rosso, o farol vermelho localizado na área portuária. O caminho pelo quebra-mar oferece uma vista diferente do centro histórico, com as muralhas, o Castello Carlo V e as casas claras vistas a partir do mar. O farol funciona como referência para a navegação na entrada do porto.
Depois retornei em direção ao Castello Carlo V, construído sobre um promontório junto ao mar durante o período de domínio espanhol, em um momento em que a monarquia espanhola reforçava as defesas do litoral do Reino de Nápoles contra ataques otomanos e incursões de piratas. A posição do castelo permitia controlar a entrada do porto e observar a costa, integrando-o ao sistema defensivo formado por muralhas, torres e outras fortificações. Ao longo do tempo, o edifício deixou de cumprir apenas uma função militar e passou por diferentes usos, incluindo o de prisão. Atualmente, o castelo recebe exposições, eventos e atividades culturais. O acesso ao interior depende da programação vigente, portanto é importante consultar as informações atualizadas na página oficial do Castello Carlo V. Mesmo quando não é possível entrar, vale observar a construção pelo lado externo e caminhar pela área próxima às muralhas, de onde se tem uma boa perspectiva do porto e do litoral.


Castello Carlo V e Faro Rosso
De lá, segui até a Basilica Cattedrale Maria Santissima della Madia, a catedral de Monopoli e o principal templo católico da cidade. A história da catedral está diretamente ligada à tradição da Madonna della Madia, padroeira de Monopoli. Segundo a tradição local, a cidade estava construindo uma nova igreja, mas as obras estavam paralisadas porque faltava madeira para concluir o telhado. Foi então que um morador sonhou que uma embarcação chegaria a Monopoli trazendo a imagem da Virgem e a madeira necessária para concluir a igreja. O bispo Dom Romualdo inicialmente não acreditou, mas, pouco depois, uma balsa foi avistada próxima à costa. Nela estavam a imagem de Maria e grandes vigas de madeira. Segundo a narrativa, os moradores não conseguiram retirar a carga nem mesmo com a ajuda de bois. A imagem só teria se movido após uma oração do bispo ou, em outras versões, ao ser tocada por crianças, confirmando o caráter milagroso do acontecimento. A Virgem foi então conduzida em procissão até a igreja, enquanto as vigas foram usadas para terminar o telhado que permanecia incompleto. A imagem passou a ser chamada de Madonna della Madia, nome associado à balsa e à madeira que a acompanhava.


Basilica Cattedrale Maria Santissima della Madia
Embora o edifício atual tenha aparência predominantemente barroca, a história do local é muito mais antiga e está ligada às origens medievais de Monopoli. No interior da basílica, a planta é organizada em uma nave central, ladeada por capelas, altares e espaços dedicados a diferentes santos e confrarias. Mármore colorido, pinturas, esculturas, estuques e detalhes dourados cobrem boa parte das superfícies, criando o efeito visual característico das igrejas barrocas da Puglia. Entre os elementos mais importantes da catedral estão a cripta e as áreas subterrâneas, que preservam vestígios das construções anteriores. Durante as obras da catedral barroca, foram encontrados restos de uma antiga igreja e de estruturas ainda mais antigas, revelando que aquele espaço já era utilizado para práticas religiosas muito antes da construção atual. Essas descobertas ajudam a compreender que a catedral não é um monumento isolado, mas o resultado de várias camadas históricas sobrepostas no mesmo local. A entrada costuma ser gratuita, mas é necessário respeitar os horários de missas e celebrações. Como a catedral continua funcionando como espaço religioso, algumas áreas podem estar temporariamente fechadas durante cerimônias ou atividades litúrgicas. As informações podem ser consultadas na página oficial da Catedral de Monopoli.


Basilica Cattedrale Maria Santissima della Madia
Depois da catedral, continuei caminhando pelas ruas do centro histórico. Essa é uma das melhores formas de conhecer Monopoli, porque o centro não é formado apenas por atrações isoladas. Ele preserva a estrutura urbana de uma cidade medieval, com ruas estreitas, passagens em arco, pequenas praças, escadarias e casas construídas próximas umas das outras. Essa configuração tinha uma função prática: facilitava a defesa e oferecia sombra durante os meses mais quentes. Como a área é compacta, dá para caminhar sem pressa e explorar as ruas laterais entre uma atração e outra. Em vez de seguir sempre pelo caminho mais direto, vale entrar nos becos, observar as portas, os pátios internos e as fachadas e prestar atenção à relação entre o centro histórico e o mar. Em Monopoli, é comum que uma rua termine em uma vista do Adriático ou em uma pequena abertura junto às muralhas.



Centro Storico di Monopoli
A caminhada me levou ao Largo Palmieri, uma das principais praças do centro histórico. O espaço é dominado pelo Palazzo Palmieri, um palácio associado à família Palmieri, uma das famílias tradicionais e influentes de Monopoli. A fachada do Palazzo Palmieri pode ser observada a partir da praça, mas o acesso ao interior não é regular e depende de eventuais aberturas ou eventos. A praça, por outro lado, é pública e pode ser visitada livremente. O Largo Palmieri é um bom lugar para fazer uma pausa e observar a escala do palácio em comparação com as casas mais simples que formam as ruas ao redor.


Largo Palmieri
Do Largo Palmieri, segui em direção ao Lungomare Santa Maria, caminhando junto às antigas muralhas e com o mar Adriático ao lado. As fortificações de Monopoli foram ampliadas e modificadas em diferentes períodos, especialmente quando a cidade precisou se adaptar ao uso da artilharia. As muralhas não serviam apenas para impedir a entrada de exércitos: também protegiam a população contra ataques vindos do mar e delimitavam o núcleo urbano. Esse trecho combina as construções do centro histórico, as fortificações e a paisagem costeira. Logo abaixo fica a Cala Porta Vecchia, uma praia urbana de acesso público. A proximidade com o centro histórico faz com que seja uma das praias mais acessíveis para quem visita Monopoli sem carro. Mesmo para quem não pretende entrar na água, vale descer até a praia para observar as muralhas a partir de baixo.


Lungomare Santa Maria
Depois da orla, voltei para a parte interna da cidade e passei pela Chiesa di San Francesco d’Assisi. A presença franciscana em Monopoli remonta à Idade Média, quando as ordens religiosas desempenhavam funções importantes não apenas na vida espiritual, mas também na assistência aos pobres, na educação e na organização da comunidade. Na sequência, cheguei à Piazza Vittorio Emanuele II, uma grande praça localizada fora do núcleo mais antigo do centro histórico. A área marca a expansão urbana de Monopoli para além das antigas muralhas. Seu tamanho e sua organização contrastam com as ruas estreitas do centro medieval e mostram como a cidade passou a crescer de maneira diferente a partir do século XIX. A praça foi planejada como um espaço amplo de circulação e convivência, com árvores, bancos, monumentos e áreas abertas. Ela também está ligada à formação da cidade moderna, quando Monopoli começou a se expandir para além do núcleo fortificado e a incorporar novas áreas residenciais e comerciais.



Chiesa di San Francesco d’Assisi, Villa Comunale e Piazza Vittorio Emanuele II
Passei também pela Villa Comunale, uma área verde próxima à Piazza Vittorio Emanuele II. Com árvores, bancos e caminhos, é um lugar agradável para fazer uma pausa depois de caminhar pelo centro histórico e pela orla. A presença de áreas verdes nessa parte mais moderna da cidade também cria um contraste interessante com o centro antigo, onde predominam pedra, muralhas e ruas estreitas. Terminei o roteiro no Porto di Monopoli, a área portuária maior da cidade. Diferentemente do Porto Antico, que fica junto ao centro histórico e concentra os pequenos gozzi, essa região tem uma estrutura mais ampla e está ligada às atividades portuárias e pesqueiras. O porto moderno mostra que a relação de Monopoli com o mar não pertence apenas ao passado ou ao turismo.



Centro Storico di Monopoli à noite
Monopoli foi uma ótima introdução à Puglia porque reúne, em uma área relativamente compacta, diferentes camadas da história regional: a cidade medieval protegida por muralhas, a influência espanhola na arquitetura militar, a tradição religiosa ligada à Madonna della Madia, os palácios das famílias locais e a atividade marítima que continua presente no cotidiano. Mais do que uma sequência de pontos turísticos, o passeio revela uma cidade construída em torno do mar e constantemente transformada pela relação com ele.
Dia 2 – Polignano A Mare
- Piazza Aldo Moro
- Monumento ai Caduti
- Ponte Borbonico di Lama Monachile
- Viewpoint da Via Conversano
- Monumento a Domenico Modugno
- Scalinata Volare
- Pendma Chiatt (Pietra Piatta)
- Scogliera del Lungomare Modugno
- Piscina Naturale
- Lama Monachile
- Ponte Romano a Polignano a Mare
- Arco Marchesale
- Piazza Vittorio Emanuele II
- Belvedere sobre a Lama Monachile
- Chiesa Madre di Santa Maria Assunta
- Piazza San Benedetto
- Via Roma
- Belvedere di Grotta Palazzese
No segundo dia, fiz um bate-volta de trem saindo de Monopoli até Polignano a Mare. As duas cidades ficam muito próximas e o trajeto leva apenas alguns minutos, o que tornou o passeio bastante simples mesmo sem carro. Da estação, caminhei até a Piazza Aldo Moro, uma das principais áreas de encontro da cidade. A praça fica fora do núcleo medieval e ajuda a perceber a expansão de Polignano para além das antigas muralhas. Hoje, reúne bancos, jardins, cafés e espaços utilizados para festas e eventos locais. Ao lado fica a Piazza Giuseppe Garibaldi, onde está o Monumento ai Caduti, dedicado aos moradores de Polignano mortos em conflitos. A obra representa um soldado acompanhado por cenas de batalha e integra o conjunto de monumentos construídos em diversas cidades italianas para preservar a memória dos combatentes.


Piazza Aldo Moro e Monumento ai Caduti
Continuei até o Ponte Borbonico di Lama Monachile, um dos principais cartões-postais de Polignano a Mare. O grande viaduto foi construído durante o período Bourbon para melhorar a ligação rodoviária entre as cidades da costa da Puglia. Do alto, é possível observar a praia de Lama Monachile encaixada entre os paredões de pedra, com as casas do centro histórico construídas sobre as falésias. A paisagem também ajuda a entender a origem geográfica do lugar. Na Puglia, o termo lama é usado para identificar depressões naturais por onde a água da chuva corre do interior em direção ao mar. Com o passar do tempo, a ação da água abriu um caminho entre as rochas, formando a profunda enseada onde hoje está a praia. O acesso ao ponte e aos mirantes ao redor é gratuito.

Ponte Borbonico di Lama Monachile
Atravessei o ponte e segui pela Via Conversano, onde fica outro ponto panorâmico sobre Lama Monachile. A mudança de ângulo permite observar melhor a estrutura do viaduto, a praia de pedras e as construções apoiadas sobre as falésias. Polignano foi erguida sobre uma costa calcária marcada pela erosão, e essa formação explica tanto os paredões quanto a grande quantidade de grutas marinhas existentes sob a cidade.

Mirante da Via Conversano
Na sequência, cheguei ao Monumento a Domenico Modugno, provavelmente a homenagem mais conhecida de Polignano a Mare. O cantor e compositor nasceu na cidade e tornou-se mundialmente famoso com Nel blu dipinto di blu, canção que acabou ficando mais conhecida como Volare. A música venceu o Festival de Sanremo, representou a Itália no Eurovision e recebeu dois prêmios Grammy, tornando-se uma das canções italianas mais reconhecidas no mundo. A estátua de Domenico Modugno foi criada pelo escultor Hermann Mejer e representa o artista com os braços abertos, na mesma posição que marcou suas apresentações de Volare. O monumento é público, gratuito e pode ser visitado a qualquer horário.

Monumento a Domenico Modugno
Atrás da estátua fica a Scalinata Volare, que desce em direção à costa. A escadaria reforça a ligação de Polignano com seu morador mais famoso e conduz até a área conhecida como Pendma Chiatt ou Pietra Piatta. O nome faz referência à grande superfície de pedra relativamente plana que se projeta sobre o mar e funciona como uma espécie de terraço natural. Mesmo sem entrar na água, vale descer pela vista de Lama Monachile, das casas do centro histórico e das falésias que acompanham a costa.


Scalinata Volare e Pendma Chiatt (Pietra Piatta)
Continuei caminhando pela Scogliera del Lungomare Modugno, observando a costa recortada e as formações criadas pela ação constante do mar. A rocha calcária de Polignano foi desgastada durante milhares de anos pela água, pelo vento e pelos fenômenos cársticos, formando cavidades, arcos, pequenas enseadas e dezenas de grutas marinhas. Algumas podem ser vistas a partir da terra, mas a melhor forma de conhecer o conjunto é por meio de um passeio de barco. Nesse trecho também passei pela Piscina Naturale, uma pequena formação rochosa onde a água do mar fica parcialmente protegida pelas pedras.

Piscina Naturale
Depois, retornei até Lama Monachile, também conhecida como Cala Porto. A pequena praia de pedras fica encaixada entre dois paredões e é cercada pelas casas brancas do centro histórico, formando a imagem mais famosa de Polignano a Mare. Antes de se transformar em atração turística, a enseada funcionou como porto comercial e ponto de entrada de mercadorias, aproveitando a proteção natural oferecida pelas falésias. A praia de Lama Monachile é pública e gratuita, mas não possui estrutura de praia com espreguiçadeiras ou guarda-sóis. A faixa de pedras é pequena, fica bastante cheia durante o verão e a água se torna profunda rapidamente. Para quem pretende entrar no mar, pode ser útil levar calçados próprios para pedras.


Lama Monachile
Próximo à praia fica o Ponte Romano de Polignano a Mare, uma estrutura ligada à antiga Via Traiana. Essa estrada foi construída durante o Império Romano como uma alternativa à Via Appia e facilitava o deslocamento entre Benevento e Brindisi, um dos portos mais importantes para as viagens em direção ao Oriente. Depois de conhecer a praia, entrei no centro histórico pelo Arco Marchesale, também conhecido como Porta Grande. Durante séculos, ele foi o principal acesso ao núcleo fortificado e possuía uma ponte levadiça que ajudava a proteger a cidade. A passagem fazia parte do sistema defensivo formado por muralhas, torres e pelo fosso que cercava o povoado medieval. Ao atravessar o arco, vale olhar para cima. Na parte interna da passagem ainda existe uma antiga representação da crucificação de Cristo. O Arco Marchesale marca claramente a transição entre a cidade moderna e o núcleo antigo: depois dele, as ruas se tornam mais estreitas, as casas ficam próximas umas das outras e pequenas passagens conduzem às praças e aos terraços sobre o mar.



Ponte Romano de Polignano a Mare e Arco Marchesale
Logo depois cheguei à Piazza Vittorio Emanuele II, também conhecida como Piazza dell’Orologio. Ela é o coração do centro histórico e reúne alguns dos edifícios mais importantes de Polignano. Entre eles está o Palazzo dell’Orologio, antiga sede administrativa da cidade, cuja torre se tornou um dos símbolos da praça. Restaurantes, cafés e pequenas lojas ocupam os edifícios ao redor, mantendo o espaço integrado à vida cotidiana. Ali fica a Chiesa Madre di Santa Maria Assunta, principal igreja do centro histórico. O templo foi consagrado no final do século XIII e provavelmente ocupa o local onde existia uma construção religiosa ainda mais antiga. Durante séculos, funcionou como catedral de Polignano, até a antiga diocese ser incorporada à de Monopoli. O interior da igreja reúne elementos de diferentes períodos, resultado das reformas e ampliações realizadas ao longo do tempo. Entre as obras mais importantes está o presépio de pedra criado por Stefano da Putignano, reconhecido como monumento nacional e considerado um dos grandes exemplos da escultura renascentista da Puglia. A entrada é gratuita, mas é necessário respeitar os horários das missas e celebrações religiosas.


Piazza dell’Orologio e a Chiesa Madre di Santa Maria Assunta
A partir dali, continuei pelas ruas do centro antigo até um dos belvederes sobre Lama Monachile. Esses terraços foram abertos entre as construções erguidas na borda das falésias e oferecem uma visão privilegiada da praia, do ponte e da costa. Vistos de cima, os edifícios parecem surgir diretamente da pedra, enquanto as grutas abertas sob as casas mostram como o mar continua transformando a base da cidade.

Belvedere sobre Lama Monachile
Continuei pela Piazza San Benedetto, uma praça retangular e mais tranquila do que a Piazza Vittorio Emanuele II. O espaço é cercado por casas brancas, restaurantes e pequenos estabelecimentos e funciona como um dos principais pontos de encontro do centro histórico. Ao caminhar pelas ruas do centro, também é possível encontrar frases, desenhos e versos escritos em portas, escadas e paredes. Muitas dessas intervenções foram criadas por Guido il Flâneur, poeta de rua que transformou os becos de Polignano em uma espécie de percurso literário. As mensagens se misturam às fachadas brancas e passaram a fazer parte da identidade visual da cidade, incentivando quem visita a prestar atenção aos pequenos detalhes, não apenas às paisagens do mar.


Piazza San Benedetto
Saí do centro histórico e segui pela Via Roma, uma das ruas mais movimentadas de Polignano, cercada por restaurantes, sorveterias, cafés e lojas. A via também presta homenagem a Domenico Modugno por meio de versos iluminados de Nel blu dipinto di blu, instalados acima da rua. A referência fica ainda mais bonita depois que anoitece, quando as palavras e as notas musicais se acendem sobre o caminho. Terminei o dia no Belvedere di Grotta Palazzese, onde fiquei para assistir ao pôr do sol. A Grotta Palazzese é uma das maiores e mais conhecidas grutas marinhas de Polignano, formada pela erosão da rocha calcária. Atualmente, parte da gruta abriga o famoso restaurante Grotta Palazzese, instalado em um terraço dentro da própria cavidade. O restaurante exige reserva e possui preços elevados, mas não é necessário jantar ali para observar a paisagem. O belvedere público acima da gruta tem acesso gratuito e oferece uma vista bonita da costa, especialmente no fim da tarde, quando a luz muda a cor das pedras e do mar.


Via Roma e Centro Iluminado
Polignano a Mare combina de maneira muito particular a paisagem natural com a história da cidade. As falésias e as grutas explicam a forma como o povoado foi construído, enquanto as pontes, as antigas muralhas e o Arco Marchesale mostram como ele se conectava e se protegia. Ao mesmo tempo, a presença de Domenico Modugno aparece em diferentes partes do roteiro, transformando Volare quase em uma trilha sonora permanente para uma cidade construída sobre o Adriático.

Belvedere di Grotta Palazzese
Dia 3 – Matera e Alberobello
Matera
- Piazza Vittorio Veneto
- Chiesa di San Francesco d’Assisi
- Belvedere Giovanni Pascoli
- Palazzo Lanfranchi
- Piazza San Pietro Caveoso
- Piazza Duomo
- I Sassi in Miniatura
- La Casa Grotta
Alberobello:
- Rione Monti
- Vista dei Trulli
- Chiesa Sant’Antonio
- Basilica Santi Medici Cosma e Damiano
- Trullo Sovrano
- Belvedere Santa Lucia
- Rione Aia Piccola
- Villa Comunale Belvedere
No terceiro dia, deixei os trens de lado e fiz uma excursão de um dia para Matera e Alberobello com a Sofia Experiences. A empresa oferece embarque em Monopoli, Polignano a Mare ou Bari, e o passeio dura aproximadamente 10 horas. No roteiro divulgado atualmente, a saída de Monopoli acontece às 8h, na Piazza Sant’Antonio, com cerca de quatro horas disponíveis em Matera e três horas em Alberobello. O transporte em ônibus com ar-condicionado, o acompanhamento com guia turístico e as entradas da Casa Grotta estão incluídos. Os valores começam em €79 por pessoa (preços 2026), mas podem variar conforme a data e a disponibilidade. Foi uma alternativa muito prática para conhecer as duas cidades no mesmo dia, principalmente porque Matera fica na Basilicata, e não na Puglia. Fazer esse roteiro por conta própria, utilizando apenas transporte público, exigiria mais conexões e dificilmente permitiria aproveitar as duas cidades com a mesma tranquilidade.
A primeira parada foi Matera, onde comecei o passeio pela Piazza Vittorio Veneto, a principal praça da parte mais moderna da cidade. Ela funciona como uma espécie de fronteira entre a Matera construída em ruas mais largas e os antigos bairros escavados na rocha. Basta caminhar até um dos mirantes próximos para que os Sassi apareçam de repente, espalhados em diferentes níveis pela encosta. Sob a praça existe ainda uma verdadeira cidade subterrânea, formada por cisternas, depósitos, antigas lojas e espaços usados para armazenar alimentos. A estrutura mais conhecida é o Palombaro Lungo, uma enorme cisterna escavada na rocha para armazenar a água da chuva. Mesmo sem entrar, essa é uma curiosidade importante para entender Matera: como a cidade não possuía fontes abundantes, seus moradores desenvolveram um sistema bastante engenhoso de canais e reservatórios para aproveitar cada gota de água.



Piazza Vittorio Veneto
Os famosos Sassi di Matera são divididos principalmente entre o Sasso Barisano e o Sasso Caveoso. Eles não são apenas casas construídas com pedras, mas um conjunto de habitações, igrejas, oficinas e depósitos parcialmente escavados nas cavernas naturais. Em muitos casos, a pedra retirada durante a escavação era reaproveitada para construir a fachada da própria casa. O resultado é uma cidade em camadas, onde o telhado de uma residência pode funcionar como rua ou passagem para outra construção. Os Sassi e o Parque das Igrejas Rupestres são reconhecidos como Patrimônio Mundial pela UNESCO desde 1993. Da Piazza Vittorio Veneto segui até a Chiesa di San Francesco d’Assisi. A fachada barroca, clara e bastante ornamentada, esconde uma história muito mais antiga. A igreja foi modificada diversas vezes ao longo dos séculos e conserva, abaixo da estrutura atual, uma pequena igreja subterrânea dedicada originalmente aos santos Pedro e Paulo. Essa mistura entre espaços escavados e construções posteriores aparece em vários pontos de Matera e mostra como a cidade foi sendo ampliada sem abandonar completamente as estruturas anteriores.


Chiesa di San Francesco d’Assisi
A caminhada continuou até o Belvedere Giovanni Pascoli, um dos mirantes mais bonitos do roteiro. Dali é possível observar principalmente o Sasso Caveoso, com suas casas de pedra, escadarias e caminhos aparentemente sobrepostos, além da Gravina di Matera e do planalto da Murgia no lado oposto do desfiladeiro. O mirante recebeu o nome do poeta Giovanni Pascoli, que iniciou sua carreira como professor em Matera. Ao lado do mirante está o Palazzo Lanfranchi, um dos edifícios históricos mais importantes da parte alta de Matera. Construído originalmente para funcionar como seminário, o palácio foi posteriormente transformado em escola (justamente aquela em que Giovanni Pascoli lecionou) e hoje abriga o Museo Nazionale d’Arte Medievale e Moderna della Basilicata. A visita ao museu não está incluída na excursão e exige algum tempo, é importante avaliar se ela cabe no período livre disponível. Horários e valores atualizados estão disponíveis na página do Palazzo Lanfranchi.

Belvedere Giovanni Pascoli
Depois comecei a descer em direção ao Sasso Caveoso até chegar à Piazza San Pietro Caveoso. Esse é um dos pontos em que a paisagem de Matera parece mais dramática, porque a praça fica diante da Gravina e cercada por construções que parecem nascer diretamente da encosta. Ali está a Chiesa dei Santi Pietro e Paolo, conhecida como San Pietro Caveoso, com a torre sineira destacando-se em meio às casas de pedra. Mais acima, também é possível observar a formação rochosa onde fica a igreja rupestre de Santa Maria de Idris. Essa parte do percurso ajuda a compreender que os Sassi nunca foram apenas um conjunto de cavernas isoladas. Eles formavam bairros completos, com casas, igrejas, cisternas, estábulos, fornos e espaços de convivência. A organização acompanhava o formato natural do terreno, criando ruas estreitas, escadas irregulares e pequenos pátios compartilhados pelos moradores.


Gravina e Igreja rupestre de Santa Maria de Idris
Na sequência, subi até a Piazza Duomo, localizada na área conhecida como Civita, o núcleo mais elevado e antigo da cidade, entre o Sasso Barisano e o Sasso Caveoso. A praça é dominada pela Catedral de Matera, dedicada à Madonna della Bruna e a Sant’Eustachio. O edifício preserva principalmente o estilo românico da Puglia na parte externa, com uma grande rosácea, esculturas e um campanário que pode ser visto de diferentes pontos dos Sassi. A praça também oferece uma bela vista para o Sasso Barisano, mostrando a cidade por uma perspectiva diferente daquela do Belvedere Giovanni Pascoli.



Catedral de Matera e Sasso Barisano
Continuei então até I Sassi in Miniatura, uma pequena oficina instalada no Sasso Barisano. O espaço abriga uma reprodução detalhada dos bairros históricos de Matera, criada pelo artesão Eustachio Rizzi utilizando a pedra local. A maquete ocupa aproximadamente 12 metros quadrados, pesa cerca de três toneladas e meia e levou três anos para ser concluída. Ruas, escadarias, igrejas, cavernas, telhados e pequenas passagens foram reproduzidos com bastante cuidado. A visita é rápida, mas ajuda muito a entender a estrutura urbana da cidade, que pode parecer um verdadeiro labirinto quando observada apenas ao nível da rua. A entrada costuma ser gratuita, e no mesmo espaço são vendidos objetos artesanais produzidos com a pedra de Matera. Os horários podem ser consultados no site de I Sassi in Miniatura.

I Sassi in Miniatura
A última visita em Matera foi à Casa Grotta di Vico Solitario, onde é possível compreender como viviam as famílias dos Sassi antes da transferência dos moradores para os novos bairros da cidade. A casa ocupa uma única grande cavidade, na qual conviviam pessoas e animais. No interior foram recriados a cozinha, a cama, a mesa, os utensílios domésticos, os instrumentos de trabalho e o espaço utilizado como estábulo. Também é possível observar os canais que conduziam a água da chuva até uma cisterna. A visita ajuda a olhar Matera de uma maneira menos romantizada. Hoje, dormir em uma caverna transformada em hotel pode parecer uma experiência sofisticada, mas muitas famílias viviam nesses espaços sem eletricidade, saneamento adequado ou ventilação suficiente. Atualmente, muitas construções foram restauradas e transformadas em casas, hotéis, restaurantes, oficinas e espaços culturais. Essa recuperação foi essencial para que Matera deixasse de ser associada apenas à pobreza e passasse a ser reconhecida pelo valor histórico de sua relação com a paisagem. A entrada da Casa Grotta estava incluída na excursão. Para quem visita por conta própria, o ingresso inteiro custa atualmente €8 (preços 2026) e também dá acesso a uma antiga neviera, uma gruta natural e uma igreja rupestre. Os horários podem ser conferidos no site oficial da Casa Grotta.

Casa Grotta
Depois de Matera, retornei ao ônibus da excursão e seguimos para Alberobello. A mudança de cenário é interessante: enquanto Matera foi em grande parte escavada na rocha, Alberobello foi construída pela cuidadosa sobreposição de pedras. As duas cidades são patrimônios da UNESCO, mas representam maneiras completamente diferentes de utilizar o mesmo tipo de material disponível na paisagem. O passeio começou pelo Rione Monti, o maior e mais turístico dos bairros de trulli. É ali que se encontra a maior concentração dessas construções, distribuídas por ruas inclinadas repletas de lojas de artesanato, restaurantes e pequenas hospedagens. Apesar da atmosfera quase cenográfica, os trulli não foram criados como atração turística. Eles serviam como moradias, depósitos e abrigos ligados à vida agrícola da região.



Rione Monti
Os trulli são construções de pedra calcária erguidas sem o uso de argamassa. As paredes são espessas e ajudam a manter a temperatura interna mais estável, enquanto os telhados cônicos são montados com pequenas placas de pedra conhecidas como chiancarelle. No alto aparecem pináculos de formatos diferentes e, em alguns telhados, símbolos pintados com cal. Eles podem representar elementos religiosos, astrológicos ou ligados às famílias que ocupavam as casas. Os bairros de Monti e Aia Piccola formam a principal área dos trulli reconhecida pela UNESCO desde 1996. Uma das histórias mais repetidas em Alberobello afirma que as construções sem argamassa poderiam ser desmontadas rapidamente quando os fiscais se aproximavam, evitando que os proprietários pagassem determinados impostos sobre as residências.

Maquete do Rione Monti em Alberobello
No ponto mais alto do bairro cheguei à Chiesa di Sant’Antonio, uma igreja construída no formato de um grande trullo. Ela possui planta em cruz grega e diferentes coberturas cônicas, além de uma cúpula central que se destaca sobre o Rione Monti. A igreja foi inaugurada em 1927 para atender os moradores desse lado da cidade, que precisavam caminhar até a região da atual Basílica dos Santos Médicos para participar das celebrações. A entrada costuma ser gratuita, mas pode ser limitada durante missas.


Chiesa di Sant’Antonio
Segui então até a Basilica dei Santi Medici Cosma e Damiano, dedicada aos padroeiros de Alberobello. Suas duas torres sineiras criam um contraste interessante com os telhados baixos e cônicos dos trulli. O edifício conserva imagens e relíquias associadas aos santos Cosme e Damião, médicos que, segundo a tradição cristã, atendiam os doentes sem cobrar pelo tratamento. A devoção é tão importante na cidade que, durante a festa patronal de setembro, muitos peregrinos chegam a Alberobello caminhando desde as localidades vizinhas. Atrás da basílica fica o Trullo Sovrano, a construção mais imponente desse tipo na cidade e o único trullo de Alberobello com dois pavimentos habitáveis. A escada para o andar superior foi aberta dentro da espessura da própria parede, uma solução bastante engenhosa para não comprometer a estrutura. A casa possui vários ambientes e foi utilizada ao longo do tempo como residência, capela, farmácia e espaço de reunião religiosa.


Basilica dei Santi Medici Cosma e Damiano
Depois fui até o Belvedere Santa Lucia, um dos melhores pontos para observar o Rione Monti de frente. Dali, os telhados cônicos parecem formar uma única paisagem, interrompida apenas pelos pináculos e pelos símbolos pintados nas pedras. O mirante é público e gratuito e costuma ficar bastante movimentado, especialmente nos horários em que chegam as excursões.

Belvedere Santa Lucia
Atravessei então para o Rione Aia Piccola, que apresenta uma atmosfera bem diferente. Enquanto o Rione Monti concentra lojas e restaurantes, Aia Piccola permanece predominantemente residencial e preserva uma rotina mais tranquila. Caminhar pelo bairro permite observar os trulli sem tantas placas, vitrines e lembranças expostas nas portas. As casas continuam sendo utilizadas, por isso é importante respeitar a privacidade dos moradores e lembrar que nem todo trullo está aberto à visitação. As ruas estreitas, os pequenos pátios e as diferenças entre cada construção mostram que, apesar da aparência semelhante, os edifícios foram adaptados de acordo com as necessidades de cada família.



Rione Aia Piccola
Terminei o roteiro na Villa Comunale Belvedere, uma pequena área verde e agradável para descansar antes de retornar ao ponto de encontro da excursão. Depois de um dia inteiro caminhando por escadas, ladeiras e ruas de pedra, foi uma pausa bem-vinda antes da viagem de volta a Monopoli. Matera e Alberobello formam uma combinação muito interessante porque mostram duas maneiras completamente distintas de viver em uma paisagem dominada pela pedra calcária. Em Matera, as famílias escavaram a rocha e criaram uma cidade de cavernas, cisternas e passagens sobrepostas. Em Alberobello, as pedras foram cuidadosamente empilhadas para formar paredes espessas e telhados cônicos. É um dia intenso, com bastante caminhada, mas a excursão facilitou muito os deslocamentos e permitiu conhecer dois dos lugares mais diferentes e marcantes do sul da Itália em um único roteiro.
Dia 4 – Lecce
- Piazzetta Sigismondo Castromediano
- Parrocchia Gesù Buon Consiglio
- Porta Napoli
- Obelisco di Terra d’Otranto
- Chiesa di Santa Maria della Provvidenza o delle Alcantarine
- Palazzo dei Celestini
- Basilica di Santa Croce
- Giardini Pubblici Giuseppe Garibaldi
- Castello Carlo V
- Anfiteatro Romano
- Chiesa di Santa Chiara
- Chiesa di San Matteo
- Cattedrale di Maria Santissima Assunta
- Piazza del Duomo
- Palazzo del Seminario
- Porta Rudiae
- Chiesa di Sant’Irene
- Chiesa di San Niccolò dei Greci
- Noite pelas ruas do Centro Histórico de Lecce
No quarto dia da viagem, deixei Monopoli e segui de trem para Lecce, que seria minha segunda base na Puglia. Depois de deixar as malas no Airbnb, saí para conhecer a cidade a pé. Lecce é especialmente conhecida pelo seu estilo barroco, marcado por fachadas repletas de esculturas e detalhes produzidos com a pietra leccese, uma pedra calcária clara e relativamente fácil de esculpir. Anjos, santos, animais, flores, frutas, colunas e figuras fantásticas aparecem por toda parte, transformando as igrejas e os palácios em verdadeiros trabalhos de renda feitos em pedra. Comecei o passeio pela Piazzetta Sigismondo Castromediano, uma pequena praça cercada por edifícios históricos, restaurantes e cafés. A poucos passos fica a Chiesa del Gesù ou del Buon Consiglio, ligada à presença dos jesuítas em Lecce. A fachada segue o modelo da Igreja do Gesù, em Roma. No centro aparece o monograma IHS, símbolo tradicionalmente associado à Companhia de Jesus. O interior é amplo e organizado para conduzir a atenção diretamente ao altar principal.


Piazzetta Sigismondo Castromediano e Chiesa del Gesù ou del Buon Consiglio
Continuei até a Porta Napoli, uma das antigas entradas monumentais de Lecce. Construída como um arco triunfal em homenagem ao imperador Carlos V, ela marcava o início da estrada que seguia em direção a Nápoles, daí a origem do nome. Na parte superior está o brasão imperial dos Habsburgo, cercado por elementos militares que reforçavam a imagem de poder e proteção. Embora tenha sido criada para homenagear Carlos V, o imperador nunca chegou a atravessá-la. Logo em frente está o Obelisco di Terra d’Otranto, erguido para celebrar o rei Fernando I das Duas Sicílias e a abertura de uma nova estrada entre Lecce e Taranto. Cada uma de suas quatro faces representa um dos antigos distritos da Terra d’Otranto: Lecce, Brindisi, Taranto e Gallipoli. Os relevos misturam referências históricas, símbolos mitológicos e elementos ligados ao território do Salento.


Porta Napoli e Obelisco di Terra d’Otranto
Segui então para a Chiesa di Santa Maria della Provvidenza, também conhecida como Chiesa delle Alcantarine. A igreja pertenceu a um convento de religiosas ligadas a São Pedro de Alcântara. O antigo convento foi demolido depois da extinção da comunidade religiosa, mas a igreja permaneceu. Sua fachada é elegante e relativamente equilibrada para os padrões do barroco de Lecce. A igreja está ligada ainda a uma antiga tradição popular dedicada à Madonna delle Ciliegie, ou Madonna das Cerejas, durante a qual a fruta era abençoada e distribuída aos fiéis.

Chiesa di Santa Maria della Provvidenza
O passeio continuou pelo Palazzo dei Celestini, antigo convento da ordem dos Celestinos e um dos edifícios mais imponentes do centro histórico. Sua fachada forma um conjunto praticamente contínuo com a igreja vizinha e combina colunas, janelas ornamentadas, figuras humanas, animais e motivos vegetais. Atualmente, o palácio abriga instituições públicas, por isso o acesso ao interior pode variar, mas o pátio e, principalmente, a fachada já merecem uma observação atenta.


Palazzo dei Celestini
Ao lado está a Basilica di Santa Croce, provavelmente o exemplo mais conhecido do barroco de Lecce. A construção atravessou diferentes fases e contou com o trabalho de alguns dos principais arquitetos e escultores da cidade. Isso ajuda a explicar a diferença entre a parte inferior da fachada, ainda relativamente contida, e a parte superior, onde a decoração se torna muito mais exuberante. O grande destaque é a rosácea central, cercada por uma quantidade impressionante de esculturas. Anjos, santos, flores, frutas, figuras humanas e criaturas fantásticas dividem espaço em uma composição cheia de simbolismo. Entre os dois níveis da fachada existe uma balaustrada sustentada por figuras humanas e animais, geralmente interpretadas como uma representação da vitória do cristianismo sobre seus inimigos. No interior, a decoração continua nos altares, nas colunas e nas capelas laterais. Um dos trabalhos mais importantes é o altar dedicado a São Francisco de Paula, cujas esculturas são tão detalhadas que lembram bordados feitos em pedra. Essa capacidade de transformar a pietra leccese em elementos delicados é justamente uma das características que tornam o barroco local tão reconhecível. A Basilica di Santa Croce faz parte do circuito LeccEcclesiae, que também inclui a Catedral e sua cripta, as igrejas de Santa Chiara e San Matteo e o Palazzo dell’Antico Seminario, com o MuDAS, a capela e o claustro. O ingresso conjunto custa €11 por adulto e €5 para visitantes entre 12 e 17 anos, enquanto o bilhete familiar custa €24. Há ainda um ingresso completo de €21 que acrescenta a subida de elevador ao campanário da Catedral (preços 2026) e os ingressos podem ser comprados nas igrejas ou pelo próprio site oficial. Como os monumentos continuam sendo utilizados para celebrações religiosas, vale verificar o calendário de missas, casamentos e fechamentos extraordinários antes da visita.


Basilica di Santa Croce
Depois de tantas fachadas e igrejas, atravessei os Giardini Pubblici Giuseppe Garibaldi, também conhecidos como Villa Comunale. O jardim possui caminhos arborizados, bancos, esculturas e um pequeno pavilhão oferecendo um pouco de sombra durante os dias mais quentes. Entre os monumentos espalhados pela área estão bustos de personalidades ligadas à antiga Terra d’Otranto e uma homenagem a Giuseppe Garibaldi.


Giardini Pubblici Giuseppe Garibaldi
Saindo do parque, fui até o Castello Carlo V. A fortaleza atual foi ampliada durante o governo do imperador Carlos V, que reforçou várias cidades do sul da Itália diante do risco de ataques otomanos. Parte de uma construção medieval anterior foi incorporada ao novo castelo, que recebeu muralhas mais espessas e grandes bastiões preparados para resistir à artilharia. Atualmente, o pátio central pode ser visitado gratuitamente, mas o acesso aos ambientes internos acontece por meio de visita guiada. O ingresso custa €10 por adulto e €6 na tarifa reduzida (preços 2026). Os horários e as opções de visita podem ser verificados na página oficial do castelo.


Castello Carlo V
Continuei até o Anfiteatro Romano, localizado em plena Piazza Sant’Oronzo. A mudança de cenário é interessante: depois de um passeio dominado pelo barroco, de repente aparecem as arquibancadas e os corredores de uma arena construída quando Lecce ainda era a cidade romana de Lupiae. Apenas cerca de um terço do anfiteatro está visível. O restante permanece escondido sob a praça e os edifícios ao redor, já que seria necessário demolir parte do centro histórico para revelar toda a estrutura. O local teria capacidade para receber entre 12 mil e 14 mil espectadores em combates de gladiadores, caçadas e outros espetáculos públicos. Parte das arquibancadas e das galerias foi escavada diretamente na rocha. É possível observar o anfiteatro gratuitamente a partir da praça.

Anfiteatro Romano
De lá, segui para a Chiesa di Santa Chiara, reconstruída em estilo barroco e marcada por uma fachada levemente curva. O interior possui formato quase octogonal, com capelas distribuídas ao redor do espaço central. O elemento mais curioso, porém, está no teto: aquilo que parece ser uma grande estrutura de madeira é, na verdade, feito de cartapesta, o papel machê tradicionalmente utilizado pelos artesãos de Lecce. O teto é composto por centenas de peças decorativas que imitam madeira entalhada, mostrando como a cartapesta podia ser empregada não apenas na produção de imagens religiosas, mas também em projetos arquitetônicos. A técnica tornou-se uma das expressões artísticas mais características da cidade. A entrada em Santa Chiara está incluída no bilhete do circuito LeccEcclesiae.



Chiesa di Santa Chiara
A parada seguinte foi a Chiesa di San Matteo, cuja fachada combina uma parte inferior convexa com uma parte superior côncava. Esse movimento faz com que o edifício pareça avançar e recuar ao mesmo tempo, uma solução inspirada no barroco romano. Ainda assim, as esculturas e os detalhes feitos com a pedra local deixam claro que se trata de uma igreja de Lecce. O interior apresenta uma planta quase elíptica, cercada por altares barrocos e pelas esculturas dos doze apóstolos. Como em Santa Croce e Santa Chiara, é preciso olhar com calma para perceber a quantidade de figuras, relevos e pequenos detalhes espalhados pelas capelas. A visita também faz parte do ingresso conjunto do circuito religioso.


Chiesa di San Matteo
Em seguida cheguei à Cattedrale di Maria Santissima Assunta, mais conhecida como Duomo de Lecce. A igreja possui duas fachadas: a principal é mais discreta, enquanto a lateral, voltada para a praça e para a entrada utilizada pelos visitantes, recebeu uma decoração muito mais teatral. O interior é dividido em três naves e reúne altares barrocos, pinturas e uma cripta preservada sob o edifício. Ao lado da catedral está o campanário, uma torre de aproximadamente 72 metros que domina o centro histórico. O projeto Up! permite subir de elevador até um conjunto de varandas localizadas a 43 metros de altura, com vista panorâmica sobre Lecce e o território ao redor. O ingresso somente para o campanário custa €12, enquanto a opção combinada com os demais monumentos custa €21 (preços 2026), conforme informações do site oficial.



Cattedrale di Maria Santissima Assunta (Duomo de Lecce)
A catedral ocupa a Piazza del Duomo, uma das praças mais bonitas de Lecce. Diferentemente das praças abertas em várias direções, ela possui praticamente uma única entrada monumental, o que cria a sensação de estar dentro de um grande pátio. Antigamente, esse acesso era fechado durante a noite, ajudando a proteger os edifícios religiosos. O espaço foi planejado como um cenário único, formado pela catedral, pelo campanário, pelo palácio episcopal e pelo Palazzo del Seminario. A disposição dos edifícios direciona o olhar e faz com que a praça pareça um palco barroco. É um lugar especialmente bonito no fim da tarde e à noite, quando a iluminação destaca o tom dourado da pedra.

Piazza del Duomo
Em um dos lados está o Palazzo dell’Antico Seminario, construído para a formação dos religiosos da diocese. O edifício atualmente abriga o MuDAS, o Museu Diocesano de Arte Sacra, além de uma biblioteca, arquivos e espaços ligados à administração religiosa. A visita ao palácio, ao claustro, à Cappella di San Gregorio e ao museu está incluída no ingresso do circuito LeccEcclesiae.


MuDAS, o Museu Diocesano de Arte Sacra
Depois da Piazza del Duomo, caminhei até a Porta Rudiae. O nome vem da antiga estrada que partia dali em direção a Rudiae, cidade messápia associada ao poeta romano Quinto Ênio. A porta atual possui aparência muito mais barroca do que militar e lembra quase um altar construído ao ar livre. No alto está a estátua de Sant’Oronzo, atual padroeiro de Lecce, acompanhada por Sant’Irene e San Domenico. A decoração também inclui bustos de personagens considerados fundadores lendários da cidade. Assim como a Porta Napoli, a Porta Rudiae pode ser observada livremente a qualquer hora.

Porta Rudiae
Retornei ao centro histórico passando pela Chiesa di Sant’Irene, dedicada à antiga padroeira de Lecce. Construída pela ordem dos Teatinos, a igreja apresenta uma fachada grande e relativamente sóbria quando comparada à Basilica di Santa Croce. No interior, porém, aparecem altares monumentais, esculturas e pinturas que devolvem ao espaço a riqueza decorativa característica de Lecce. A entrada costuma ser gratuita, mas os horários podem variar de acordo com as celebrações religiosas.

Chiesa di Sant’Irene
A última igreja do roteiro foi a Chiesa di San Niccolò dei Greci, bem pertinho do meu Airbnb, que é uma pequena construção ligada à comunidade greco-albanesa e ao rito bizantino. Sua história completa o percurso iniciado na Chiesa del Gesù: quando os jesuítas construíram sua igreja no local antes ocupado pela antiga comunidade grega, os fiéis foram deslocados e, mais tarde, estabeleceram-se neste novo templo. A fachada é simples e bastante diferente das igrejas barrocas visitadas durante o dia.

Chiesa di San Niccolò dei Greci
Terminei o dia caminhando pelas ruas do centro histórico de Lecce. À noite, a iluminação muda completamente a aparência da cidade: a pedra clara ganha tons dourados, as sombras realçam os relevos das fachadas e os monumentos parecem ainda mais detalhados. As ruas ao redor da Piazza Sant’Oronzo, da Piazza del Duomo e da Basilica di Santa Croce ficam movimentadas, com restaurantes, cafés e moradores aproveitando o início da noite.


Lecce à noite
Lecce concentra igrejas, ruínas romanas, palácios e antigas portas em uma área compacta, o que torna o centro histórico muito agradável para explorar sem carro. Mais do que visitar uma sequência de monumentos, caminhar pela cidade permite acompanhar suas diferentes camadas.
Dia 5 – San Cataldo e Aula de Culinária
San Cataldo
- Praia de San Cataldo (Vicino al Faro)
- Spiaggia Soleluna
Lecce
- Aula de culinária (Preparo de massas e Tiramisù)
- Noite pelas ruas do Centro Histórico de Lecce
Depois de dedicar o dia anterior às igrejas, praças e monumentos de Lecce, comecei o quinto dia conhecendo um lado bem diferente da cidade: o seu litoral. Embora Lecce não esteja exatamente à beira-mar, San Cataldo fica a aproximadamente 10 quilômetros do centro e é a praia mais próxima da cidade. O lugar é tradicionalmente conhecido como il mare dei leccesi, ou “o mar dos habitantes de Lecce”. Fui de ônibus, uma alternativa simples para quem está viajando pela Puglia sem carro. O transporte urbano de Lecce é operado pela SGM, e a ligação com San Cataldo aparece atualmente como linha S16. Como linhas, paradas e frequências podem mudar entre os horários de verão e de inverno, vale confirmar o trajeto pouco antes da viagem. O aplicativo oficial SGM Lecce ajuda bastante nessa parte da organização. Nele, é possível visualizar as linhas e paradas, consultar horários atualizados, planejar o percurso e verificar eventuais alterações no serviço. Basta informar o ponto de partida e o destino para que o aplicativo apresente as opções disponíveis, incluindo trajetos com menos trocas ou menos trechos a pé. Também é possível comprar a passagem diretamente pelo aplicativo, sem cobrança adicional de comissão. Depois de entrar no ônibus, porém, não basta ter o bilhete comprado no celular: é necessário validá-lo escaneando o QR Code localizado próximo à porta de entrada do veículo. Em caso de fiscalização, o passageiro deve apresentar o bilhete ativo na tela do telefone. De acordo com a tabela oficial da SGM, o bilhete simples, válido por 60 minutos, custa atualmente €1,20 quando comprado antecipadamente e €1,50 quando adquirido dentro do ônibus. Há também um bilhete diário, válido por 24 horas, por €3. (Valores em setembro de 2026).
O trajeto entre Lecce e San Cataldo leva aproximadamente de 20 a 30 minutos, dependendo da parada de embarque e das condições do trânsito. Aos poucos, a paisagem urbana dá lugar a uma área mais aberta até chegar à costa do Adriático. Desci na região próxima ao farol, indicada nos mapas como vicino al faro, expressão que significa simplesmente “perto do farol”. Essa é uma boa referência para localizar a praia e também uma das áreas mais interessantes de San Cataldo, porque reúne o litoral, o farol e vestígios da antiga relação de Lecce com o mar. San Cataldo não é apenas uma praia próxima à cidade. Durante o período romano, existiu ali um porto associado ao imperador Adriano, construído para facilitar a ligação entre a antiga Lupiae (nome romano de Lecce) e as rotas comerciais do Adriático. Alguns vestígios dessa estrutura ainda podem ser observados perto do farol e junto à água.

Spiaggia Soleluna
A costa de San Cataldo é arenosa, com trechos de praia livre intercalados por estabelecimentos privados. A paisagem é diferente das falésias de Polignano a Mare e também das grandes formações rochosas encontradas mais ao sul, perto de Otranto e Castro. Aqui, o cenário é mais simples e ligado à rotina dos moradores de Lecce, que aproveitam a proximidade para passar o dia no mar sem precisar percorrer grandes distâncias. A praia próxima ao farol oferece acesso ao Adriático e permite observar de perto essa combinação entre paisagem natural e memória histórica. Fiquei na Spiaggia Soleluna. Diferentemente dos trechos de praia livre, a Soleluna funciona como um lido, nome utilizado na Itália para os estabelecimentos balneários que oferecem estrutura de praia, com guarda-sóis, espreguiçadeiras, banheiros, alimentação e etc. A Spiaggia Soleluna possui restaurante, área de lazer e uma seção Bau Beach, destinada a quem frequenta a praia com cachorros. Para quem está hospedado em Lecce sem carro, San Cataldo é uma opção prática. Ela talvez não tenha as paisagens mais dramáticas do Salento, mas permite combinar algumas horas de praia com outras atividades na cidade durante o mesmo dia.


Spiaggia Soleluna
Foi exatamente o que fiz: depois de aproveitar o litoral, peguei o ônibus de volta para Lecce para participar de uma aula de culinária. A experiência foi reservada pelo GetYourGuide e custou €45. A aula aconteceu em um restaurante no centro de Lecce. A aula tem duração aproximada de duas horas e meia, é realizada em inglês e inclui os ingredientes, os utensílios e a orientação de uma cozinheira local. A proposta é preparar massas frescas e um tiramisù e, no final, provar tudo o que foi feito durante a atividade.
Começamos aprendendo a preparar a massa fresca desde o início. Apesar de ser feita com poucos ingredientes, ela exige atenção à textura e ao ponto correto. É preciso trabalhar a massa até que fique lisa e elástica, deixá-la descansar e depois abri-la até alcançar a espessura adequada para cada formato. Durante a aula, preparei fettuccine, uma massa longa cortada em tiras, e mezzelune, uma massa recheada cujo nome significa “meias-luas” por causa de seu formato semicircular. Fazer os dois tipos permite praticar técnicas diferentes: enquanto o fettuccine depende principalmente da abertura e do corte uniforme da massa, as mezzelune também exigem cuidado com a quantidade de recheio e com o fechamento das bordas para que não se abram durante o cozimento.



Aula de Massas e Tiramisú em Lecce
Depois das massas, preparei o tiramisù. O nome vem da expressão italiana tirami su, que pode ser traduzida como “levante-me” ou “anime-me”, uma referência ao efeito revigorante associado ao café e ao açúcar. A sobremesa clássica é montada em camadas com biscoitos embebidos em café, creme de mascarpone e cacau. O preparo não exige forno, mas depende do equilíbrio entre os ingredientes. Os biscoitos precisam absorver o café sem perder completamente a estrutura, enquanto o creme deve permanecer leve e firme o suficiente para sustentar as camadas. Depois de montado, o tiramisù precisa descansar para que os sabores se integrem e a sobremesa adquira a consistência correta.



Aula de Massas e Tiramisú em Lecce
A atividade incluía ainda vinho local, Prosecco ou bebidas sem álcool. No final, foi possível comer as massas e o tiramisù preparados durante a aula. Além de aprender as receitas, a experiência acabou funcionando também como uma refeição completa e como uma oportunidade de me conectar com as pessoas locais. A professora, Cristiana, foi incrível e paciente. Além da aula, conversamos sobre tudo, sobre a vida, signos, vinhos, viagens… Foi como passar a tarde com uma velha amiga.



Lecce à noite
Quando a aula terminou, aproveitei para caminhar novamente pelas ruas do Centro Histórico de Lecce. À noite, a cidade ganha uma atmosfera diferente daquela encontrada durante as visitas aos monumentos. A pietra leccese assume um tom ainda mais dourado sob a iluminação, enquanto os bares, restaurantes e pequenas praças ficam cheios de pessoas. Depois de conhecer os principais monumentos no dia anterior, foi agradável simplesmente caminhar, observar os edifícios iluminados e aproveitar o movimento noturno, uma forma linda se me despedir dessa cidade incrível.
Dia 6 – Gallipoli, Leuca, Castro e Otranto
- Excursão de dia inteiro saindo de Lecce:
Gallipoli
- Castello di Gallipoli
- Mercato Coperto
- Via Antonietta de Pace
- Piazzetta Santa Teresa
- Basilica Cattedrale di Sant’Agata
- Ruas do Centro Histórico de Gallipoli
- Statue of Saint Pius
- Spiaggia della Purità
- Chiesa Rettoria Santa Maria della Purità
- Porticciolo San Giorgio
- Porto di Gallipoli
- Lungomare Gallipoli
Santa Maria di Leuca
- Castrignano del Capo
- Faro di Capo Santa Maria di Leuca
- Santuario di Santa Maria de Finibus Terrae
Ponte Ciolo
- Parada para fotos
Castro
- Belvedere di Castro
- Mura Messapiche
- Archaeological Site of Castrum Minervae
- Chiesa dell’Annunziata
- Centro Storico di Castro
Santa Cesarea Terme
- Parada para fotos
Bagno Marino Archi
- Parada para fotos
Otranto
- Castello Aragonese
- Centro Histórico de Otranto
- Lungomare degli Eroi
- Monumento agli Eroi e ai Martiri Otrantini del 1480
- Baia Vicino Canale Idro
- Spiaggetta del Molo / Spiaggia dei Bambini
- Villa Comunale — La Villa / Giardini Pubblici
- Porta Terra
- Cattedrale Primaziale Santa Maria Annunziata di Otranto
- Cripta da Catedral
- Piazza Basilica
- Piazza Castello
- Ponte dell’Immacolata
No sexto dia da viagem, fiz uma excursão de dia inteiro saindo de Lecce para conhecer algumas das principais cidades e paisagens costeiras do Salento. O percurso formava praticamente uma volta pela extremidade sul da Puglia: começou em Gallipoli, no lado voltado para o mar Jônico, desceu até Santa Maria di Leuca e depois continuou pela costa do Adriático, passando pelo Ponte Ciolo, Castro, Santa Cesarea Terme e Bagno Marino Archi antes de terminar em Otranto. Contratei o passeio por uma agência local chamada Infotab, e custou €80, reservei passeio diretamente na agência mas ele também pode ser reservado no Site Oficial. Como o roteiro inclui muitas cidades em um único dia, o tempo disponível em cada parada é limitado. Não é uma excursão para conhecer todos os monumentos em profundidade, mas uma maneira prática de ter um primeiro contato com diferentes partes do Salento, especialmente para quem está hospedado em Lecce e não pretende alugar um carro.
A primeira parada foi Gallipoli, cujo nome é normalmente associado ao grego Kallípolis, ou “cidade bela”. O centro histórico ocupa uma pequena ilha ligada à parte moderna da cidade por uma ponte. Essa separação ainda é muito evidente: de um lado estão as ruas mais recentes, o comércio e os edifícios modernos; do outro, surgem o castelo, as muralhas, as igrejas barrocas e as casas construídas muito próximas umas das outras. Assim que atravessei a ponte, encontrei o Castello di Gallipoli, localizado junto à entrada da cidade antiga e quase completamente cercado pelo mar. A fortaleza atual é resultado de diferentes fases de construção. Estruturas defensivas já existiam naquele ponto durante a Idade Média, mas o castelo foi ampliado e transformado principalmente durante os períodos angevino e aragonês. Sua localização permitia controlar tanto a ponte quanto a chegada das embarcações. Atualmente, o Castello di Gallipoli recebe exposições e atividades culturais. A entrada no interior é paga e os horários podem variar conforme a estação e a programação. Como a excursão tem o tempo reduzido, é importante confirmar antecipadamente se haverá tempo para fazer a visita completa ou apenas observar a fortaleza pelo lado externo (como eu fiz).

Castello di Gallipoli
Próximo ao castelo fica o Mercato Coperto, instalado em um espaço de pedra junto à entrada do centro histórico. O mercado reúne bancas e pequenos estabelecimentos que vendem alimentos, produtos locais, artesanato e lembranças. Por estar entre a ponte, o porto e as principais ruas da ilha, funciona como uma espécie de passagem entre a Gallipoli marítima e o interior do centro antigo. Continuei pela Via Antonietta De Pace, principal eixo do centro histórico. A rua atravessa boa parte da ilha, passando por palácios, igrejas, lojas, restaurantes e antigos edifícios ligados às famílias mais importantes da cidade. O nome homenageia Antonietta De Pace, patriota nascida em Gallipoli que participou dos movimentos favoráveis à unificação italiana durante o século XIX.


Mercato Coperto e Via Antonietta De Pace
Passei pela Piazzetta Santa Teresa, uma pequena abertura entre os edifícios do centro histórico e em seguida cheguei à Basilica Cattedrale di Sant’Agata, principal igreja de Gallipoli. A construção atual foi iniciada no século XVII e representa um dos exemplos mais importantes do barroco local. A fachada foi esculpida em carparo, pedra de tonalidade quente bastante utilizada na região, e reúne nichos, colunas, esculturas e elementos decorativos distribuídos em diferentes níveis. Como a catedral está encaixada entre ruas estreitas, não existe uma grande praça diante dela. É necessário afastar-se o máximo possível ou observar a fachada por partes, prestando atenção às estátuas e aos detalhes esculpidos. Essa proximidade torna o edifício ainda mais imponente. O interior da Cattedrale di Sant’Agata é marcado por uma grande quantidade de pinturas, altares e elementos decorativos. Entre os artistas representados estão Giovanni Andrea Coppola, pintor nascido em Gallipoli, e Nicola Malinconico, ligado à escola napolitana. As telas ocupam boa parte das paredes e do teto, criando uma composição muito mais escura e dramática do que a fachada clara sugere. A igreja é dedicada a Sant’Agata, padroeira de Gallipoli. Segundo a tradição local, uma das relíquias da santa teria chegado à cidade durante a Idade Média, fortalecendo uma devoção que continua presente nas celebrações religiosas e na identidade da população.



Basilica Cattedrale di Sant’Agata
Depois da catedral, continuei pelas ruas do centro histórico. O traçado conserva passagens estreitas, casas caiadas, varandas, pequenos pátios, palácios e igrejas construídos em diferentes períodos. Algumas ruas atravessam o interior da ilha, enquanto outras acompanham as muralhas e oferecem vistas para o mar Jônico. Gallipoli também manteve, durante séculos, uma relação importante com a produção e a exportação de azeite. Parte dele era destinada à iluminação de cidades europeias e era produzido em antigos frantoi ipogei, lagares subterrâneos escavados sob os edifícios. Esses espaços aproveitavam a temperatura mais estável do subsolo e hoje ajudam a explicar a antiga importância comercial do porto.



Centro Histórico de Gallipoli
Durante a caminhada, passei também pela pequena estátua dedicada a São Pio de Pietrelcina. Imagens do santo aparecem em diferentes cidades do sul da Itália e refletem a forte devoção popular associada ao frade capuchinho, canonizado em 2002 e conhecido no Brasil como Padre Pio. Pouco depois cheguei à Spiaggia della Purità, uma praia urbana localizada sob as muralhas do centro histórico. A faixa de areia forma uma pequena curva diante do mar Jônico e contrasta com as construções antigas erguidas logo acima. Por estar praticamente dentro da cidade histórica, é uma das praias mais características de Gallipoli. O nome vem da Chiesa Rettoria Santa Maria della Purità, localizada diante da praia. A igreja foi construída na segunda metade do século XVII pela confraria dos bastasi, trabalhadores responsáveis por transportar e descarregar mercadorias no porto. A fachada relativamente simples é decorada com painéis de majólica, enquanto o interior apresenta pinturas, altares e uma ornamentação muito mais elaborada. A entrada costuma ser gratuita, mas depende dos horários de abertura e das celebrações religiosas.



Estátua de São Pio e Spiaggia della Purità
Continuei até o Porticciolo San Giorgio, uma pequena área portuária ocupada principalmente por barcos de pesca e embarcações de menor porte. O porto ajuda a lembrar que, apesar do turismo, Gallipoli continua mantendo uma relação cotidiana com a pesca. Redes, barcos, equipamentos e a movimentação dos pescadores fazem parte da paisagem. O Porto di Gallipoli possui uma estrutura maior e historicamente serviu como ponto de saída para produtos agrícolas, especialmente o azeite produzido no território do Salento. Sua posição no mar Jônico favorecia a ligação com outras áreas do Mediterrâneo e ajudou Gallipoli a se transformar em um importante centro comercial. Terminei a passagem pela cidade caminhando por um trecho do Lungomare di Gallipoli. A via acompanha parte das muralhas e oferece diferentes perspectivas da ilha, da praia, do porto e do mar.


Porto di Gallipoli
Depois de Gallipoli, seguimos para o território de Castrignano del Capo, município ao qual pertence Santa Maria di Leuca, onde os mares Jônico e Adriático se encontram, embora não seja visível essa junção na água. Se o mapa da Itália é uma bota, Leuca está exatamente na ponta mais extrema do saltinho. A primeira parada foi no Faro di Capo Santa Maria di Leuca, construído no século XIX sobre o promontório. Sua função é importante devido à posição de Leuca nas rotas que passam entre o Adriático, o Jônico e o canal de Otranto. Ao lado fica o Santuario di Santa Maria de Finibus Terrae. A expressão latina significa “Santa Maria no fim da terra” e está relacionada à maneira como os romanos enxergavam essa extremidade do território. O nome Leuca, por sua vez, costuma ser associado à palavra grega leukós, que significa “branco”, possivelmente em referência à cor das pedras iluminadas pelo sol.


Santa Maria di Leuca
De Santa Maria di Leuca começamos a subir pela costa do Adriático até a Ponte Ciolo, no território de Gagliano del Capo. A parada foi apenas para fotos, mas o local oferece uma das paisagens mais dramáticas do litoral salentino. A ponte atravessa uma estreita garganta rochosa que termina no mar. As paredes altas, a pequena enseada e a água azul formam um corredor natural entre a estrada e o Adriático. Como a excursão previa apenas uma parada panorâmica, não desci até a pequena enseada. O acesso envolve escadas e exige muito mais tempo do que uma simples pausa para fotografias.


Ponte Ciolo
A parada seguinte foi Castro, cidade dividida entre a parte costeira, conhecida como Castro Marina, e o núcleo histórico construído sobre o promontório. Seguimos para a parte alta, de onde se tem uma vista ampla da costa e do canal de Otranto. Comecei pelo Belvedere di Castro. Em dias de tempo muito limpo e alta pressão atmosférica, é possível enxergar do outro lado do canal as montanhas da Albânia. Continuei até as Mura Messapiche, vestígios das antigas fortificações construídas quando Castro fazia parte do território dos messápios, povo que habitava o sul da Puglia antes da expansão romana. Os muros protegiam o assentamento e o importante santuário existente no promontório. As descobertas arqueológicas realizadas em Castro reforçaram a identificação da cidade com a antiga Castrum Minervae mencionada nas fontes romanas. O local também costuma ser associado à passagem da Eneida em que Eneias avista um porto na costa italiana e um templo dedicado a Minerva.


Mura Messapiche e Fortaleza de Castro
A caminhada continuou até a Chiesa dell’Annunziata, também conhecida como Catedral de Castro. Uma inscrição indica que a construção foi concluída em 1171, embora o edifício tenha passado por diversas reformas depois de invasões e destruições. A parte externa conserva características do românico da Puglia, como os arcos cegos, as pilastras e os portais de pedra. Junto à lateral da catedral, em um nível mais baixo do que a rua atual, encontram-se vestígios de uma pequena igreja bizantina dos séculos VIII ou IX. Terminei a parada caminhando pelo Centro Storico di Castro. As ruas estreitas acompanham o formato irregular do terreno e passam entre casas claras, pequenos pátios, trechos de muralha e mirantes voltados para o mar. Apesar de o núcleo ser pequeno, sua história atravessa os períodos messápio, grego, romano, bizantino e medieval.



Depois de Castro, fizemos uma rápida parada para fotos em Santa Cesarea Terme. A cidade se desenvolveu em torno de suas águas termais, que emergem de cavernas naturais ligadas ao mar. As águas possuem componentes sulfurosos e são tradicionalmente utilizadas em tratamentos termais. A paisagem combina falésias, estabelecimentos de banho e edifícios construídos quando Santa Cesarea começou a atrair visitantes interessados nas propriedades das fontes. Como a parada foi apenas panorâmica, não visitei os estabelecimentos termais nem o interior das vilas. Fizemos uma parada rápida no Bagno Marino Archi, apesar do nome aparecer em muitos roteiros como se fosse uma praia, trata-se de um lido, ou estabelecimento balnear, instalado sobre a costa rochosa. O espaço utiliza plataformas, terraços e escadas integrados às formações de pedra, permitindo o acesso ao mar mesmo onde não existe uma faixa de areia. Nossa parada foi somente para observar e fotografar o lugar.



Bagno Marino Archi em Santa Cesarea Terme
A última cidade da excursão foi Otranto, localizada na costa do Adriático e próxima ao ponto mais oriental da Itália. Sua posição diante do canal de Otranto transformou a cidade em uma ligação natural entre a península Itálica, os Bálcãs e o Mediterrâneo oriental. Ao mesmo tempo, essa abertura para o mar também a expôs a invasões e disputas. A visita começou pelo Castello Aragonese, construído junto às muralhas e ao porto. O castelo foi erguido entre o final do século XV e o século XVI sobre fortificações anteriores, depois que a cidade foi retomada dos otomanos. Atualmente, o castelo recebe exposições e atividades culturais. A entrada é paga e os bilhetes podem ser comprados na bilheteria ou antecipadamente. Mas devido ao tempo limitado, optei por observar apenas de fora.


Castello Aragonese
Continuei pelas ruas do Centro Histórico de Otranto, protegido por muralhas e organizado em diferentes níveis. O percurso passa por escadas, rampas, pequenas praças, casas brancas, lojas de artesanato e restaurantes. Em diversos pontos, as ruas se abrem para o porto ou para o mar. A cidade foi dominada por diferentes povos ao longo de sua história, incluindo romanos, bizantinos, normandos e aragoneses. Essa sucessão de poderes está relacionada à sua posição estratégica: Otranto era um porto importante para o comércio, para as peregrinações e para as expedições militares em direção ao Oriente.



Centro Histórico de Otranto
Saí da área mais interna e segui pelo Lungomare degli Eroi, um calçadão aberto diante da baía. O nome homenageia os habitantes ligados à resistência durante o ataque otomano de 1480, episódio que marcou profundamente a memória da cidade. Ali fica o Monumento agli Eroi e ai Martiri Otrantini del 1480. A escultura apresenta uma figura feminina que representa Otranto voltada para o mar, de onde chegaram as forças invasoras. Em 1480, tropas do Império Otomano sitiaram e conquistaram Otranto. Grande parte da população foi morta ou escravizada. Segundo a tradição cristã, um grupo de homens teria se recusado a abandonar a fé e foi executado fora das muralhas. Conhecidos como Mártires de Otranto, eles foram canonizados pela Igreja Católica em 2013.


Monumento agli Eroi e ai Martiri Otrantini del 1480 e Lungomare degli Eroi
Continuei pela orla até a Baia Vicino Canale Idro, área de banho próxima ao ponto onde o canal chega à costa. O Canale Idro atravessa parte da cidade e desemboca na baía, ajudando a explicar a forma do litoral e a presença de pequenas faixas de areia dentro da área urbana. Passei também pela Spiaggetta del Molo, conhecida como Spiaggia dei Bambini. A pequena praia fica protegida pelos molhes e pelas estruturas do porto, o que normalmente deixa a água mais calma.


Spiaggia dei Bambini
Caminhei então pela Villa Comunale, também chamada de La Villa ou Giardini Pubblici. A área possui árvores, bancos e caminhos e funciona como um espaço de descanso entre o centro moderno, a orla e a entrada da cidade histórica. Na sequência, cheguei à Porta Terra, uma das principais entradas do núcleo antigo. A passagem está integrada à Torre Alfonsina e ao sistema de muralhas reconstruído depois da retomada aragonesa da cidade.


Porta Terra e La Villa
Depois subi até a Cattedrale Primaziale Santa Maria Annunziata di Otranto. A igreja reúne elementos românicos, bizantinos e de períodos posteriores, resultado das reformas realizadas depois de invasões e transformações religiosas. O elemento mais conhecido da catedral é o grande mosaico que cobre o piso da nave. No centro aparece uma grande Árvore da Vida, ao redor da qual foram distribuídas cenas bíblicas, animais, signos do zodíaco, figuras fantásticas e personagens vindos da literatura e das lendas medievais. Entre as imagens estão episódios do Antigo Testamento, criaturas de bestiários e personagens como Alexandre, o Grande, e o rei Artur. Essa combinação pode parecer inesperada dentro de uma igreja, mas reflete a maneira medieval de representar o mundo: religião, história, moral, natureza e imaginação faziam parte de uma mesma narrativa sobre a humanidade.



Cattedrale Primaziale Santa Maria Annunziata di Otranto
A catedral também preserva a memória do cerco de 1480. Na Cappella dei Martiri estão expostas relíquias tradicionalmente associadas aos habitantes executados depois da conquista otomana. A apresentação dos ossos em grandes relicários produz um contraste muito forte com as cores e as figuras do mosaico. Desci então à cripta da catedral, o espaço é sustentado por uma grande quantidade de colunas com materiais e dimensões diferentes. Muitos desses elementos foram reaproveitados de construções anteriores, criando a aparência de uma pequena floresta de pedra.


Cappella dei Martiri
Ao sair da igreja, passei pela Piazza Basilica, pequeno espaço diante da catedral, e depois continuei até a Piazza Castello, dominada pela fortaleza aragonesa. O espaço funciona como uma das principais áreas de passagem entre o centro histórico, o porto e as ruas externas. É também um bom ponto para observar as torres, o fosso e a ligação do castelo com as muralhas. A última parada foi o Ponte dell’Immacolata, uma passagem moderna próxima ao porto e ao castelo.


Ponte dell’Immacolata e Piazza Castello
Depois retornamos a Lecce, encerrando um dos dias mais intensos da viagem. A excursão percorreu duas costas e reuniu cidades com identidades muito diferentes: Gallipoli, protegida em sua ilha no mar Jônico; Leuca, marcada pelo farol e pelo simbolismo do fim da terra; Castro, construída sobre um antigo santuário de Minerva; Santa Cesarea, desenvolvida em torno das águas termais; e Otranto, onde muralhas, mosaicos e memórias de invasões revelam a proximidade histórica com o Oriente.
Dia 7 – Bari
- Statua di Niccolò Piccinni
- Piazza Giuseppe Massari
- Strada Arco Basso (A famosa Rua das Senhoras do Orecchiette)
- Castello Svevo di Bari
- Cattedrale Metropolitana Primaziale San Sabino (Catedral de Bari)
- Cripta della Cattedrale di San Sabino
- Piazza dell’Odegitria
- Bari Vecchia
- Piazza San Nicola
- Basilica Pontificia San Nicola
- Lungomare Imperatore Augusto
- Ruderi di Santa Maria del Buon Consiglio
- Teatro Margherita
- Molo San Nicola
- Lungomare Araldo di Crollalanza
No sétimo e último dia da viagem pela Puglia, deixei Lecce e segui de trem para Bari, a capital da região. Cheguei à cidade por volta das 13h e, como dormiria ali apenas uma noite, tinha somente metade do dia para conhecer seus principais pontos. Depois de deixar a mala na hospedagem, saí para fazer todo o roteiro a pé. Bari é uma cidade muito maior e mais movimentada do que Monopoli, Polignano a Mare ou Lecce, mas seu centro histórico permanece concentrado em uma península junto ao Adriático. A diferença entre as duas partes da cidade é bastante evidente: enquanto o bairro Murat possui ruas retas, comércio, palácios e edifícios modernos, Bari Vecchia preserva um labirinto de vielas, igrejas, arcos e casas construídas muito próximas umas das outras. Comecei o passeio pela Statua di Niccolò Piccinni, monumento dedicado ao compositor nascido em Bari, um artista que, embora tenha desenvolvido parte importante de sua carreira fora da Itália, permaneceu ligado à identidade cultural de Bari. O monumento fica na Piazza Giuseppe Massari, uma praça arborizada localizada entre a parte moderna da cidade, o Palazzo del Governo e o centro histórico. A praça funciona como uma espécie de transição entre diferentes versões de Bari. De um lado estão as avenidas e os edifícios administrativos da cidade moderna; do outro começam o castelo e as ruas irregulares de Bari Vecchia. Essa proximidade torna a praça um bom ponto de partida para um roteiro curto pelo centro.


Piazza Giuseppe Massari e Statua di Niccolò Piccinni
A poucos minutos dali cheguei à Strada Arco Basso, conhecida como a Rua das Senhoras das Orecchiette. O acesso acontece por um pequeno arco de pedra e leva a uma rua residencial onde mulheres da comunidade preparam massas diante de suas próprias casas. Em mesas montadas nas portas, elas trabalham rapidamente a massa feita tradicionalmente com sêmola de trigo duro e água. Pequenos pedaços são cortados, arrastados com uma faca e virados com o polegar até adquirirem o formato côncavo que lembra uma pequena orelha, origem do nome orecchiette. Depois de moldadas, as massas são distribuídas em telas, bandejas e grandes superfícies de madeira para secar. Além das orecchiette tradicionais, é possível encontrar massas de diferentes tamanhos, formatos e cores, algumas preparadas com ingredientes como espinafre, beterraba ou tinta de lula. A orecchietta é um dos grandes símbolos gastronômicos da Puglia. Apesar da fama internacional, a Strada Arco Basso continua sendo uma rua residencial. As mesas, as conversas entre vizinhas, as portas abertas e as roupas nos varais fazem parte da vida cotidiana de Bari Vecchia, e não apenas de uma encenação criada para visitantes. Por isso, vale respeitar o espaço das moradoras e pedir permissão antes de fazer retratos muito próximos.



Strada Arco Basso
Continuei até o Castello Svevo di Bari, também chamado de Castello Normanno-Svevo. A fortaleza marca uma das extremidades de Bari Vecchia e foi construída sobre uma área que já possuía estruturas do período bizantino. A construção foi atacada, destruída e reconstruída diversas vezes, acompanhando os conflitos entre a população de Bari e os diferentes governantes do sul da Itália. As grandes muralhas externas, o fosso e os bastiões pertencem principalmente às reformas realizadas para adaptar o complexo às armas de fogo. Assim como em outras cidades da Puglia, a aparência atual do castelo é resultado da sobreposição de diferentes períodos: bizantino, normando, suábio, angevino, aragonês e renascentista. Mesmo sem entrar, vale caminhar ao redor do fosso para observar a escala da fortaleza e sua posição entre o porto e a cidade antiga.


Piazza e Castello Svevo di Bari
Do castelo segui para a Cattedrale Metropolitana Primaziale San Sabino, mais conhecida como Catedral de Bari. O local já era ocupado por edifícios religiosos muito antes da construção atual. Escavações encontraram vestígios romanos, uma antiga igreja paleocristã e estruturas de uma catedral bizantina. A antiga catedral foi destruída em 1156, quando o rei normando Guilherme I, conhecido como Guilherme, o Mau, ordenou a destruição de grande parte de Bari depois de uma revolta da população. A reconstrução começou algumas décadas mais tarde e o edifício atual foi consagrado em 1292. A fachada de pedra clara é um dos principais exemplos do românico da Puglia. O campanário alto e visível entre as vielas funciona como uma referência para quem caminha por Bari Vecchia.



Cattedrale Metropolitana Primaziale San Sabino
Desci então à Cripta della Cattedrale di San Sabino. Diferentemente da nave principal, a cripta conserva uma aparência predominantemente barroca, com colunas e detalhes dourados. Sob o altar principal estão as relíquias de San Sabino, bispo de Canosa e antigo padroeiro de Bari. A cripta conserva ainda relíquias atribuídas a Santa Colomba e a imagem da Madonna dell’Odegitria, uma das devoções mais importantes da cidade.



Cripta della Cattedrale di San Sabino
A partir da cripta é possível acessar o Succorpo, a área arqueológica sob a catedral. O percurso reúne vestígios romanos, estruturas paleocristãs, partes da antiga igreja bizantina, mosaicos e fragmentos de afrescos. Entre os elementos mais importantes está o chamado Mosaico de Timóteo, produzido com pedras, mármore e fragmentos de cerâmica colorida. Atualmente, o ingresso turístico da Catedral de Bari custa €7 e inclui a igreja, a cripta e a área arqueológica (valores em setembro de 2026).



Succorpo
Ao sair da igreja, cheguei à Piazza dell’Odegitria, que recebeu o nome da imagem preservada na cripta. A praça é cercada por edifícios religiosos e administrativos e oferece uma visão mais ampla da catedral, difícil de conseguir a partir das ruas estreitas de Bari Vecchia. Continuei caminhando sem pressa pelas ruas de Bari Vecchia. As vielas estreitas ajudavam a oferecer sombra e dificultavam o avanço de invasores. Arcos ligam edifícios, escadarias conduzem a pequenos largos e altares religiosos aparecem em paredes e esquinas. Caminhar por Bari Vecchia também é uma experiência gastronômica. Além das orecchiette, aparecem padarias vendendo focaccia barese, normalmente preparada com tomates, azeitonas e bastante azeite.



Bari Vecchia
A caminhada me levou à Piazza San Nicola, espaço localizado diante do conjunto religioso dedicado ao padroeiro. A praça costuma reunir moradores, peregrinos e grupos de visitantes, especialmente durante as festas do santo em maio e dezembro. A relação de Bari com San Nicola começou quando marinheiros da cidade trouxeram de Myra, na atual Turquia, grande parte das relíquias do bispo. Naquele período, possuir os restos de um santo conhecido aumentava o prestígio religioso de uma cidade, atraía peregrinos e também fortalecia sua importância política e econômica. A basílica tornou-se uma das principais referências do românico da Puglia e influenciou a construção de outras igrejas da região. San Nicola é venerado tanto por católicos quanto por cristãos ortodoxos, especialmente russos, gregos e fiéis vindos de países do leste europeu. O santo também está na origem da figura moderna do Papai Noel, pois ficou conhecido por histórias relacionadas à generosidade, especialmente a tradição segundo a qual teria entregado secretamente sacos de moedas a uma família pobre. A entrada na basílica e na cripta é gratuita, mas é necessário respeitar o silêncio e as celebrações.



Basilica Pontificia San Nicola
Depois da basílica, caminhei pelo Lungomare Imperatore Augusto, que acompanha o lado marítimo de Bari Vecchia. De um lado ficam o Adriático e o porto; do outro, as antigas muralhas sobre as quais foi criado um caminho elevado conhecido como Via Venezia. Continuei até os Ruderi di Santa Maria del Buon Consiglio, localizados em uma praça tranquila de Bari Vecchia. Colunas, bases de paredes e partes do antigo piso permanecem expostos ao ar livre, formando a imagem de uma igreja sem teto. A igreja passou por diferentes transformações ao longo dos séculos, mas acabou sendo demolida durante trabalhos arqueológicos e intervenções que procuravam recuperar seus elementos mais antigos. Permaneceram as colunas, parte das paredes e fragmentos dos pavimentos, transformando o lugar em um pequeno sítio arqueológico integrado ao bairro.


Orecchieteria San Nicola e Ruderi di Santa Maria del Buon Consiglio
Deixei Bari Vecchia e segui em direção ao porto antigo, onde encontrei o Teatro Margherita. O edifício foi construído em estilo Liberty, a versão italiana do movimento Art Nouveau. Sua fachada avermelhada, as grandes janelas e as duas torres laterais criam um contraste marcante com o mar e com os prédios claros do centro histórico. A característica mais curiosa é que o teatro foi erguido sobre pilares dentro da água. A escolha teria servido para contornar um acordo entre o Comune di Bari e os proprietários do Teatro Petruzzelli, que impedia a construção de outro teatro em terreno municipal. Como o Margherita estava sobre o mar, tecnicamente não ocupava o solo da cidade.


Teatro Margherita e Ruas de Bari
Continuei até o Molo San Nicola, um dos lugares mais ligados ao cotidiano de Bari. O nome está relacionado aos pescadores que atracavam ali suas pequenas embarcações e vendiam o pescado diretamente no cais. Essa tradição ainda pode ser observada principalmente durante a manhã, quando aparecem barcos, caixas de peixe, polvos, ouriços e outros frutos do mar. Bari possui uma relação muito forte com o consumo de frutos do mar crus. Polvo, mexilhão, lula, sépia e ouriço podem ser servidos com limão e acompanhados por uma cerveja. Ao longo do dia, o Molo San Nicola muda de atmosfera. Depois que a movimentação dos pescadores diminui, o espaço se transforma em ponto de encontro para moradores, especialmente no fim da tarde e à noite. Barcos tradicionais, o Teatro Margherita e Bari Vecchia formam uma das paisagens mais representativas da cidade.


Molo San Nicola
Terminei o passeio no Lungomare Araldo di Crollalanza, um dos trechos mais conhecidos da longa orla de Bari. O calçadão foi desenvolvido principalmente durante as transformações urbanas da primeira metade do século XX, quando a cidade passou a se expandir e a construir uma nova relação com o mar. As fileiras de postes de iluminação, os bancos, as palmeiras e os edifícios voltados para o Adriático criaram a imagem monumental do lungomare que se tornou um dos cartões-postais de Bari.
Encerrar o roteiro ali fez sentido porque Bari resume vários elementos que apareceram durante toda a viagem. O Adriático continua presente, mas agora diante de uma cidade grande e movimentada. As fortalezas de Monopoli, Lecce, Gallipoli e Otranto reaparecem no Castello Svevo; as influências do Oriente estão na Odegitria e na devoção ortodoxa a San Nicola; e a culinária regional ganha forma nas mãos das mulheres que ainda produzem orecchiette diante de suas casas.

Lungomare Araldo di Crollalanza
Na manhã seguinte, saí cedo de Bari e peguei o ônibus para Roma, encerrando meus sete dias pela Puglia. A cidade funcionou como uma última síntese da viagem: uma capital movimentada que, por trás das avenidas e do porto moderno, ainda conserva um centro histórico moldado por marinheiros, santos, invasões, massas preparadas à mão e uma relação com o Adriático que atravessa praticamente toda a história da região.
Roteiro no Mapa
Usando o My Maps é possível simular o roteiro dentro do mapa do Google Maps, e construir sequências de atividades funcionais. Esse é o meu roteiro na Puglia. Dê zoom no mapa em cada uma das cidades para ver os detalhes do roteiro por cidade.
Orçamento Final
Abaixo estão listados os custos que eu paguei pela viagem para Puglia, em junho de 2026, com câmbio de € 1 = R$ 6,00.
Na prática paguei um pouco menos do que está listado abaixo, pois consegui descontos no aéreo, hotel e em alguns passeios com milhas acumuladas, mas segue os valores originais:

É possível diminuir esses custos ao escolher uma opção de hospedagem mais econômica (como hostel, hotéis mais afastados do centro ou Airbnb), conseguindo melhores promoções no aéreo e usando milhas, usando mais transporte público e removendo alguns passeios. Minha passagem pela Puglia foi parte de uma viagem maior que passou antes por Malta e encerrou em Roma, logo os valores de aéreo foram impactados.
Espero que este roteiro te inspire a descobrir a Puglia para além de suas praias. Entre cidades brancas debruçadas sobre o Adriático, trulli que parecem saídos de um conto, fachadas barrocas esculpidas em pedra, orecchiette moldadas à mão e paisagens cercadas por dois mares, a região mostra que o salto da bota italiana guarda alguns dos caminhos mais bonitos do país. A Puglia pode até estar no extremo sul do mapa, mas permanece por muito tempo na memória, e essa terra de pedra, azeite, massa e mar espera por você!

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